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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Erro por querer

Lembro da primeira vez que tive um contato menos traumático com o português, que sempre foi meu ponto fraco nas matérias do ensino fundamental e médio.

Estava na quinta série, 1995. No final do primeiro semestre houve um festival de cultura sobre Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade.

Cada sala escolheu uma poesia de cada autor para ser apresentada no tal evento. Pra isso, a gente ia lá perto do quadro negro e recitava a que tinha escolhido.

Entre cada aluno a "tia", ou melhor, professora, tecia alguns comentários.

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Na época, a quinta série era quando se deixava de chamar as professoras de tia. E ai de quem chamasse de tia. Seria sacaneado o resto do ano.
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O que me chamou mais atenção foi a explicação de licença poética. A tia Marlene contou meia dúzia de mentiras e disse que a pontuação errada que o cara tinha feito era um erro 'por querer'. Eram poucos alunos prestando atenção, mas fiquei com vontade de contestar. Fiquei pensando:
"Po, tem que ser muito fodão pra errar e todos acharem que você errou porque quis...". É claro que eu só queria me dar bem. Queria era fazer isso com meus erros nas provas de redação.

Bom, mas digo isso porque nessa tarefinha de recitar poesias, levei uma chamada "Mãos Dadas", do Drummond. Na época não entendi direito. Mas agora, confesso, entendo até demais.


Mãos Dadas - Drummond

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

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